PANTANAL SUL

Corredor privado de conservação no Pantanal mira nos 600 mil hectares


Por Pantanal Oficial 06/05/2021 sem comentários


Formar um corredor de biodiversidade onde coexistirão, de modo sustentável, pecuária e ecoturismo com recursos de créditos de carbono e créditos de biodiversidade. Esta é a síntese do projeto idealizado pelo empresário Roberto Klabin, que visa criar um núcleo regional sustentável com venda de créditos de carbono, créditos de biodiversidade, aluguel de pastagem e ecoturismo.

A área atual tem 151.000 hectares que, somados aos de um parque estadual vizinho, chegam a 229.000 hectares. Isso corresponde ao território de Luxemburgo ou de São Paulo com Santo André, São Bernardo, São Caetano e Diadema juntos. A iniciativa tem potencial de alcançar 600.000 hectares, o que a tornará o maior projeto de conservação privado do Brasil e entre os maiores do mundo. Até agora, a adesão está em avançada discussão com outros 15 produtores rurais.

Um passo decisivo nessa direção foi a aquisição da Fazenda Santa Sofia, em Aquidauana (MS), a cerca de 200 quilômetros de Corumbá.  Além de preservada, a fazenda faz limites com os rios Aquidauana e Negro, e corria o risco de ser desmatada por pecuaristas. A propriedade tem 83 quilômetros de margem de rio, e 34.000 hectares, dos quais 32.000 hectares têm ainda vegetação nativa e, destes, 7.387 hectares foram transformados em RPPN ( reserva privada do patrimônio natural).  A Santa Sofia foi comprada por oito cotistas a valor não divulgado para a imprensa, e dois sócios doaram sua parte ao Onçafari, que conduzirá o projeto inspirado na reserva de Sabi Sand, na África do Sul.

A Fazenda Santa Sofia está entre as propriedades de dois empresários conservacionistas da região: Roberto Klabin, que há mais de 30 anos opera turismo ecológico no Refúgio Ecológico Caiman, uma fazenda de 53.000 hectares, e a Fazendinha, de Teresa Bracher, com 33.000 hectares. No corredor formado pelas três fazendas existem 263 espécies de peixes, 463 de aves, 123 de mamíferos, 85 de répteis, 35 de anfíbios e mais de 1.000 espécies de árvores e plantas.

A ideia de comprar a Santa Sofia e fechar um corredor de biodiversidade onde coexistirão, de modo sustentável, pecuária e ecoturismo com recursos de créditos de carbono e créditos de biodiversidade partiu de Roberto Klabin, de Teresa Bracher e do ex-piloto Mario Haberfeld. Idealizador do Onçafari, projeto criado para preservação da biodiversidade em vários biomas com foco em onças-pintadas e lobos-guará.

“Nossa intenção é fazer crescer o projeto, atraindo mais vizinhos. Vários já demonstraram interesse. Assim criaremos esse enorme corredor de biodiversidade”, disse Haberfeld. “É um negócio inédito empresários comprarem terra com o fim de conservação” pontua.  O Onçafari ficará responsável pela gestão da fazenda e pela prestação de contas aos cotistas. A região, felizmente, não foi muito afetada pelos incêndios que destruíram 26% do bioma em Mato Grosso e Mato Grosso do Sul. Em 2019, contudo, 60% da Caiman foi atingida pelo fogo.

Um dos planos é certificar a Fazenda Santa Sofia para venda de créditos de carbono no mercado voluntário. Haberfeld estima que a fazenda pode gerar 10.000 créditos de carbono ao ano, o que poderia significar uma receita de US$ 30.000,00. Ele cita ainda os créditos de biodiversidade, mecanismo que leva em conta o número de espécies na região e o grau de ameaça.

O próximo passo é estabelecer as regras para o projeto sustentável da região, com pecuária e ecoturismo, disse Haberfeld. “Nossa intenção é fazer o grupo crescer cada vez mais com outros empresários associando-se à iniciativa”, disse o ex-piloto. A Santa Sofia tem que ser autossustentável e a ideia é que a terra não seja vendida ou dividida. Eventuais receitas que vierem com o projeto serão reinvestidas em conservação. “É um mosaico de conservação que pode ter benefícios econômicos”, disse. “Não vamos impedir a produção, mas estimulá-la de maneira consciente.”

Em nove anos de pesquisa, o Onçafari encontrou 170 onças-pintadas na Caiman. A estimativa é que, neste momento, existam cerca de 60 onças-pintadas circulando nas cercanias. No início do Onçafari as onças eram vistas seis vezes ao ano, número que chegou a mais de 900 vezes em 2019. Se antes 1% dos hóspedes viam onças, agora 98% deles avistam uma delas.

ENTRAVES

No caminho da construção deste corredor, as burocracias do sistema público freiam a continuidade das ações. No último mês de 2020, o governo de MS assinou com o BNDES para finalmente iniciar estudos de viabilidade da concessão de cinco unidades de conservação, entre elas o Monumento Gruta do Lago Azul, em Bonito.

Via Ministério do Turismo também segue o estudo para concessão do Parque Estadual do Pantanal Rio Negro, conectado ao corredor privado de conservação.  Segundo apurado pela Folhapress, o estudo está sendo feito em parceria com Ministério do Meio Ambiente e ICMBio e o próximo passo, antes da contratação dos estudos de viabilidade, é a qualificação do ativo no PPI, afirma o Governo Federal.

Hoje, apenas 14% dos 78,3 mil hectares da área estão em situação regular, ou seja, aquela que já pertence oficialmente ao parque, após a desapropriação e indenização dos produtores rurais.

Ricardo Senna, que é secretário-adjunto da Secretaria Estadual de Meio Ambiente, Desenvolvimento Econômico, Produção e Agricultura Familiar de MS (Semagro), confessa que o processo é demorado, já que a área pode tanto ser parte de inventário como também ter diversos donos.

Na fala do secretário-adjunto, isso não impede porém que avancem o estudo e concretização da concessão, no espaço permitido. “A empresa só vai poder fazer os atrativos –trilhas, observação de pássaros, o que seja– dentro da área regularizada, à medida que vai regularizando, vai avançando”, explica Ricardo.

Ele defende que essa situação acontece em outros parques pelo país, mas que a ação do grupo pode contribuir com a iniciativa do poder público. “Aumentar esse corredor é importante para a conservação e manutenção da biodiversidade”, finalizou.

** (Com informações SNA; Governo do Estado de MS e Folhapress)

 



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